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Violência midiática - a comunicação que silencia.

Escrito por Ingrid Ramires 23 de Janeiro de 2018
Violência midiática - a comunicação que silencia.


A inserção automática da música "Só surubinha de leve" na plataforma do Spotify, tornando-se também a primeira no ranking da playlist "Virais 50", levou a grandes discussões na internet sobre a violência contra a mulher exposta em músicas de diversos gêneros. Na música é possível ouvir o MC se dirigindo as mulheres com as palavras "putas" "filhas das putas"  e "piranhas". Mas o trecho que realmente tem sido alvo de críticas severas foi este: "Taca a bebida, depois taca a pica e depois abandona na rua”, tornando explícita a apologia ao estupro.

E não é para menos todas as problematizações feitas diante do contexto que essa música revela. O feminicídio é uma realidade no Brasil. Segundo o  Anuário Brasileiro de Segurança Pública , a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada. Todos os dias 135 mulheres são estupradas em nosso país, (dos casos em que a mulher tem coragem de notificar).  O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios femininos: ocupando a 5 ªposição em um ranking de 83 nações, segundo dados do Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso).  

Com todo o barulho que os internautas fizeram nas redes sociais, o Spotify retirou a música do seu catálogo e emitiu  a seguinte nota: "“O catálogo do Spotify é abastecido por centenas de milhares de gravadoras, artistas e distribuidoras em todo o mundo. Eles são devidamente avisados sobre nossas diretrizes e são responsáveis pelo conteúdo que entregam. Desta forma, informamos que contatamos a distribuidora da música “Só surubinha de leve” a respeito do ocorrido, e fomos informados que a faixa será retirada da plataforma nas próximas horas, uma vez que o tema foi trazido à nossa atenção”, disse a nota oficial." A título de informação o Spotify também já retirou de sua plataforma músicas de um  grande número de bandas de supremacia branca após a passeata de Charlottesville nos EUA, ano passado.

Porém essa é apenas a ponta do Iceberg, pois o problema é ainda maior. De fato, é de extrema importância que uma plataforma como Spotify se pronuncie e tenha uma política de enfrentamento a violência. Mas como a mídia reage diante a esse tipo de agressão? A retirada de uma música não gera o fim da violência. É uma obrigação de toda e qualquer empresa honrar os direitos humanos. Chegamos ao ponto em que a violência contra mulher tem sido tão evidente, que uma atitude contra ela se torna louvável, quando deveria ser praticada por todos. Não me escandaliza que parte da sociedade trate o estupro como algo natural, e não como uma decisão consciente de uma pessoa que tenta coagir e violentar outra. Afinal não é de agora que tem-se reproduzido conteúdos abusivos como este.

O estupro ainda é relativizado pela sociedade, pela imprensa e algumas músicas são apenas reflexo do mesmo pensamento. A mídia é responsável por grande parte da suavização ou diminuição do teor de situações de violência contra a mulher, culpabilizando a vítima por estar com um determinado tipo de roupa, por estar andando só, ou por ter ido a algum espaço público que "não era de mulher frequentar". Cansei de ler matérias de sites com os dizeres "mulher supostamente espancada..." , "mulher supostamente estuprada.." "Filha supostamente abusada sexualmente...", porque afinal, mesmo que as evidências do crime estejam expostas nas feridas do corpo da vítima, o comportamento "direito" e cultural que se espera de um mulher, seria o de ficar constrangida diante tais atos, refletindo no que ela teria feito para merecer ser estuprada, e não denunciar.  E  no fim das contas,  não importa se  somos todas "vendidas" nas músicas e nos comerciais. Aos olhos deles somos bonecas plástico: controladas, usadas e abusadas, sem nenhuma autonomia, apenas com a finalidade de ser propriedade de outrem. Somos qualquer coisa, menos seres humanos. O que de fato é um grande absurdo.

Dado os fatos apresentados, é notável que a ideia de "naturalização" das relações abusivas através da publicidade e da indústria do entretenimento , teve/tem grande influência no silenciamento de vítimas de estupro. Somos os principais influenciadores dessa sociedade doente, marcada pela desigualdade de gênero. Além da responsabilidade social, as agências publicitárias possuem uma dívida histórica por ter contribuído com a propagação de conteúdo machista desde a década de 50 até os dias de hoje. Afinal somos nós que trazemos a tona discussões, damos ênfase a determinados conteúdos e reforçamos padrões juntamente com a sociedade. A única coisa que podemos fazer diante disso é escolher combater ou perpetuar o feminicídio.

Confira dados e estatísticas sobre violência contra as mulheres:

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